about

´A minha prática artística, multidisciplinar, é desde cedo um catalisador do processo de integração e mediação da realidade.
Desenvolve-se como um exercício de significação e reconfiguração da existência. Remete para a definição de uma identidade narrativa
e encerra contemporaneamente a necessidade de valorização do que é intrinsecamente humano.
O meu trabalho desenvolve-se num sistema binário, ético-estético, em que justaponho forma e pensamento recorrendo na maioria das vezes
de forma directa à palavra escrita. Reflecte a mediação da experiência numa procura incessante de integração e exposição de situações e
conceitos. Traduz-se em geral numa resposta dinâmica a questões existenciais num continuo processo de transformação. Neste sentido,
a prática artística, ganha uma dimensão de acção de desenvolvimento e aprendizagem que traduzo pelos conceitos gregos de Phronesis e Eudaimonia.’

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´My multidisciplinary art practice, since early, has been a catalyst of the process of integration and mediation of reality. Translated in a
reconfiguration of existence, a definition of a narrative identity and at the same time, a search for meaning and purpose, valuing what is
intrinsically human. My work is build in a binary ethical-aesthetic system, in which I juxtapose form and thought, most of the time directly
using the written word.
My work reflects the mediation of experience in an unceasing search for integration and exposure of situations and concepts. Translating
in general a dynamic answer to existential questions in a continuous process of transformation. In this sense, artistic practice gains a
dimension of development and personal learning, that I translate into the Greek concepts of Phronesis and Eudaimonia. ’

Salomé Nascimento

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O percurso artístico de Salomé Nascimento apela tanto ao entendimento do movimento errante e persistente do sujeito, na
tentativa de encontrar um substrato de enraizamento identitário, como mostra, pelo contrário, a impossibilidade da apreensão
total de um real e, logo, de uma identidade confinada e estanque. Deste paradoxo, resulta uma prática artística que vive da
suspensão e manipulação de fragmentos oriundos de circunstâncias autobiográficas quotidianas e daquilo que, a todo o
momento, cada nova experiência ou objecto vem alterar do entendimento que o próprio sujeito faz de si e do mundo. Assim,
o real é assimilado frequentemente como um “lugar de não pertença” que se revela pelo choque perceptivo da irrepetibilidade
e volatilidade do conceito de tempo, tal como da consciência de que a apreensão do real está dependente de uma interpretação
narrativa que se constrói a partir dos objectos que o constituem.
A obra de Salomé Nascimento é um conjunto fragmentário que revela as sucessivas interrogações que a artista coloca a si mesma,
manifestando-se num conjunto de objectos que de alguma forma tentam recompor uma linearidade inexistente, repondo pela
sua materialidade, alguma substância dissipada e fazendo apelo à necessidade de concretização de uma identidade. A artista joga
com esta constante tensão de forças, que, por um lado, apelam à ordenação de categorias estanques, como identidade, história
e real, como, por outro lado, nos revela a fragilidade da definição destes mesmos conceitos, expondo ao observador a inconstância
da definição de si próprio e das relações que este estabelece com o mundo. Cada obra da artista é, portanto, uma tentativa de
construção de um real, que se entende permeável a cada intervenção e que revela o próprio carácter ilusório e transitivo do
autêntico.
A utilização de materiais vulgares, manipulados ou indexativos, que se tornam fragmentos emblemáticos de uma determinada
circunstância espácio-temporal trivial, resultam de uma forma de entendimento do tempo que se permite olhar empática
e demoradamente para os objectos descartados, e despercebidos pelo modo frenético e acelerado em que a experiência
contemporânea é vivida. Noutras palavras, através de uma concepção de tempo que valoriza o prazer ocioso e, por isso,
contrasta com a experiência contemporânea do quotidiano, os objectos desvalorizados do passado estabelecem uma relação
embaraçosa com o presente, onde o choque resultante do confronto entre as diferentes formas de apreciação significativa
destes objectos, expõe de forma crítica os motivos para o seu descarte. Estabelece-se, portanto, uma relação dialética entre
o tempo da recolha destes objectos e o tempo do seu reenquadramento e valorização em contexto artístico, desencadeando
processos de problematização acerca da arbitrariedade das diferentes possibilidades de valorização colectiva dos objectos
no presente, ou ainda até sobre o modo em que as estratégias de valorização dos objectos na sociedade capitalista actual,
interfere na definição do que significa ser artista.

Margarida de Lopes Grilo

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