displaced pages]
do espaço do otium
e de outros espaços

'(...) drawing as a state of mind, more than taking action, I am following. The gesture flows and the mind rests.
The process and the material become the engine, and an action is performed on me.'


fotografia_João Falcão Trigoso

Do espaço do otium e doutros espaços, não é um projecto. Estes desenhos representam o manifesto da ‘NÃO ACÇÃO’,
um acto de resistência num exercício de presença, resistência à pressão de agir de forma estratégica, útil e eficiente. Representa o espaço do ócio.
Pretendo simplesmente existir num espaço e reconhecer a irrepetibilidade desse momento. Desenho devagar, uma linha de cada vez, ‘uma coisa a seguir
à outra’, sem tentar conduzir a minha mão. Escolho páginas de livros, deplians ou flyers comoterritório de acção para concretizar uma relação com o mundo
físico real. O suporte funciona como índice, um signo que mantém uma relação concreta com a realidade externa.
Este contacto é intensificado com a anotação de várias frases que co-crio com o texto original existente, através da escolha de palavras que me saltam à vista
e que acredito representem conteúdos ligados às situações presentes. São também apontadas outras informações do contexto envolvente, fragmentos de
diálogos ou o texto de uma canção, para além das coordenadas do local, data e hora. É um exercício contínuo, constituiído por partes, sem princípio nem fim.
Não obedecendo a uma ordem determinada, as suas partes podem ser sucessivamente recombinadas. Quando interrompo, está acabado e contemporaneamente
pode sempre ser continuado. É ao mesmo tempo fragmento, uno, finito e infinito.’
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O trabalho como um exercício de continuidade fragmentada. O desenho como ‘doodles’ que se auto executam. O não-projecto. Este trabalho, ao contrário da sua
restante obra com um forte carácter auto biográfico, parece apresentar, numa primeira análise, um corte com o real. O autor manifesta a sua presença pela simples
inscrição de data, hora, local e coordenadas geográficas. O espaço interno sobrepõe-se sobre o espaço externo. O autor repousa. Justapõe-se mas não participa.
Existe como observador. Aponta a situação mas não conta uma história.
O suporte que escolhe e as anotações indicam o contexto, manifestando a intenção de passar uma mensagem, ou pelo menos, de afirmar a presença na situação
específica. Como o desenho nesse contexto afirmasse - ‘I’ve been there.’ - impondo a lógica da fotografia. O desenho como um doodle, que se faz quando se está
a fazer outra coisa, implica evocar algo que está a acontecer contemporaneamente e que está a ser presenciado por um observador.
Estes desenhos unem realidades descontínuas, referem dois lugares distintos. O espaço de presença num acto passivo de simples existência / observação.
O ‘espaço de desvio’ (Foucault_’From other spaces.’), pessoal e intimista, o autor no seu isolamento, com referência ao ‘otium’. E o espaço externo do mundo físico,
as páginas que transportam informação, a acção, os eventos, múltiplas camadas de signi cação e de relações a outros lugares, cuja complexidade não pode ser
captada imediatamente. Esta justaposição representa a alteridade da vida contemporânea, o resgatar do espaço do outro. O ‘eu’ e o outro.